

Jair Bolsonaro elegeu-se deputado federal pelo Rio de Janeiro. O Brasil mal saia do longo crepúsculo das liberdades individuais e coletivas, que não permitiu, durante 22 anos, o povo ver nas ruas ou nos recintos fechados o florescer das idéias nos acesos debates em torno dos problemas sociais e dos valores da democracia.
Bolsonaro é militar da reserva. No sexto mandato, integra os quadros do Partido Progressista, mas parece não ser de nenhum. Já foi do Partido Democrata Cristão, do Partido Progressista Renovador, do Partido Progressista Brasileiro, do Partido Trabalhista Brasileiro, do Partido da Frente Liberal.
Tornou-se célebre por suas posições polêmicas, por suas declarações sempre marcadas de transparência ideológica tamanha – um traço elogiável do ser - que não deixa margem a interrogações sobre o que defende e o que quer para o Brasil.
Crítico acerbo de todos os governos pós-ditadura, não hesitou em pedir, um dia, da tribuna da Câmara, o fuzilamento do ex-presidente Fernando Henriques Cardoso. Apesar de membro da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal (!?!), erigiu-se em defensor da tortura: "O objetivo é fazer o cara abrir a boca. O cara tem que ser arrebentado para abrir o bico."
Contrário à luta dos familiares para encontrar os seus desaparecidos durante a ditadura, chocou o sentimento cristão e a opinião pública nacional com um cartaz afixado na porta de seu escritório: “Quem procura osso é cachorro.” O Grupo “Tortura Nunca Mais” denunciou apreensivo que ele, deixando reunião no Clube Militar do Rio de Janeiro, desabafou sem rubor: "Nós não devíamos só torturar. Devíamos torturar e matar."
Parlamentares assim é que, paradoxalmente, mais ajudam a valorizar os princípios universais da democracia, que tutelam a liberdade responsável de o cidadão expressar sem medo de represálias vis o que pensa, o que defende, tal como a pessoa mais aprende a dar importância à saúde quando a dissipa. O jornalista Vladimir Herzog não aceitava a ditadura. Só por isso, depois de longos interrogatórios, intercalados com sessões de torturas, apareceu morto na cela. Jura Bolsonaro: foi suicídio.
A democracia precisa de Bolsonaro no Parlamento, a empunhar a bandeira que não queremos nunca mais tremulando sob os céus do Brasil, a não ser a meio mastro pelo luto da longa noite de horrores em que o país mergulhou entre 64 e 86. Ele mesmo é voz de denúncia viva em nossos dias do que foi a ditadura.
É lição histórica relembrar esse “suicídio” que mais precipitou a derrocada do regime militar: “Vladimir acordou mais cedo (...). Fez a barba, tomou banho e se despediu da mulher, Clarice, ainda na cama, com um beijo. (…) Konder e o outro (...) ouviram os gritos de Vlado e a ordem para que fosse trazida a máquina de choques elétricos. Os gritos duraram até o fim da manhã. Os choques eram tão violentos que faziam Vlado urrar de dor, diz Konder. (…) O interrogador, um homem de uns 35 anos, magro, musculoso, com uma tatuagem de âncora no braço, (…) Essa foi a última vez que Vlado foi visto e ouvido.”
Só reapareceu, sem mais ser ouvido: de paletó, dependurado ao teto pela própria gravata. É mesmo muito útil Bolsonaro. Os excelsos valores da democracia mais se nutrem e se fortalecem na contradição dos antivalores da ditadura, por ele tão enaltecidos com arraigada convicção.


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