






Passei muito tempo na rua, passei muito tempo fora de minha cidade, de meu estado, de meu país...Por isso hoje prefiro ficar no recolhimento de minha casa de subúrbio.Não é nenhum problema de saúde, graças a Deus.Cheguei aos 64 anos com uma saúde relativamente boa, tirando os males pertinentes à idade.
De meu computador, de minha cadeira, vejo minha janela, e pela janela vejo a vida passar.Logo cedinho, as pessoas, as que trabalham ou estudam, apressadas, no ponto do onibus que fica em frente, por vezes com chuva, as pessoas se abrigando.E eu fico feliz porque hoje não necessito mais sair em dias de chuva, como antigamente, nos tempos em que trabalhava fora.
Conheço, pelo menos de vista, as pessoas que esperam o onibus.Tem um casal cuja casa perece que é sustentada financeiramente pela mulher, pois ela pega o onibus, e ele(presumo) volta para casa a fim de dormir mais.Tudo bem, se as mulheres queriam independência, queriam seu lugar agora têm.E essa sustenta a casa.
Passa a loirinha gostosa que eu tentei fazer amizade com ela, e fui delicadamente recusado.Ela deu a entender nas entrefalas que não ia gostar de ser amiga de um homem de sessenta e quatro anos, um ancião, na sua concepção.Tudo bem, menininha...Seja como você quiser, mas um dia eu te pego!!A menininha que eu falo tem 25 anos...
Passam as buchudinhas que vão para o Posto de Saúde, uma delas era tão menina que eu perguntei a idade e ela me respondeu que tinha 13, e não sabia onde andava o pai, bem entendido, o pai do menino que tava no seu bucho.Fico mesmo pensando, que futuro terão os dois, mãe e filho.
Uma garoa fina começa a cair.As pessoas correm em busca de abrigo, os carros passam espanando as poças d'água, o ceu escurece, uma nuvem cinzenta aparece no horizonte.Entro, fecho minha janela, começo a escrever, acendo o abajur, e me desligo do mundo onde vivi metido...


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